Carta para Rodolfo

Rodolfo,

Você é artista natural, de sangue que corre em “contra-mão” nas veias,

feito de fogo, alma, emoção, personalidade…

É questionador do mundo…incompreendido por muitos, compreendido por quase ninguém…

Gosta do inesperado, do incomum, do diferente… é espontâneo, eloquente… nem um pouco discreto…  é criativo, é criador… é mau-criado…

Audacioso, impertinente… controverso… displicente… despreocupado… agitado, desassossegado, antenado…

É a “ovelha negra” de uma vasta e devastada sociedade ignorante…

Seus atos, seus passos, seus pensamentos não condizem com a alienação besta de um mundo que procura viver, inquestionavelmente, todas as amargas mazelas criadas por nós…

É peça desencaixada, desgarrada, destemida… seguidor de um “ser” só seu… seguidor de nada… perseguidor de tudo…

É alegria, é cor, é vento… adrenalina, paixão, momento… é de carne…  de sentimento…

amor brusco… passo lento…

Coração descompassado… respiração ofegante… suor gotejante…  aplausos… momento… momento…

É irreverente, conscientemente inconseqüente… caçador de sorrisos, construtor de sonhos…

É a vida da arte…. é a arte da vida…

É o todo da parte de uma alma curtida…

 

 

 

Ha muito tempo…

Acorda Brasil

                 I

Pero Vaz de Caminha,

Juntamente com Cabral.

Dizendo o que a terra tinha

Escreviam p’ra Portugal.

                 II

– Pau Brasil de Montão,

Índos p’ra serem escravos.

Eles não sabem dizer não,

E tão pouco eles são bravos.

                 III

Desde então a nossa gente,

Ouviu sem dizer nada.

Somos o fruto da semente,

Que há muito foi plantada.

                 IV

E até hoje nessa terra,

Milagre só vem de fora.

Tudo que temos se enterra,

Depois é que a gente chora.

—-

10/10/84

Geraldo da Cunha Castro.

Belchior

A saudade vem de expresso..

É tanta!
Fiz a ponta do lápis
Na minha janela insone.

O que me consome
É não ter uma caneta…

E tu?! A traçar caminhos num Belo campo..?!
Quando aperta eu canto: Dzane, Dzane… E imagino o Raul!

E como que fica?! Partistes num estica e não voltou…!
Ponho à mesa, os pratos e talheres…

E espalho em possibilidades de ter fazer visitas..!
Meu caderno e a linha, numa varinha de condão!

 

—-

À Daniel Wilson Belchior, grande mano!

Rodolfo de Castro,

Se eu tivesse uma caneta

Escreveria para ti

Um soneto…

Num prosáico bobo e chulo 

Que esperei a noite toda para escrever…

Mas, se eu tivesse uma caneta,

Cruz!

Não poderia apagar.

—-

Rodolfo de Castro.

Aquele esboço de Soneto 14

Saudade daquela promiscuidade
Loucuras carnais que nos dava
Perder o ar… O que era o pudor?!
O seu suor… Seu sorriso incontido no coito
Aquele mel
Meu delírio
As suas mãos estrangulando o travesseiro
Não sai da memória.
O flagra.
Que a folga, fez fumaça
Ímpetos de delírios
Desejos quentes
Duma vontade
Perecida.

——-

RGC

Em tempos idos.